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Estudo de 14 anos aponta a fase em que o café mais sofre com o calor

O enchimento dos grãos é a fase do café arábica mais sensível ao aumento da temperatura, segundo pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e da Embrapa Agricultura Digital que analisou 14 anos de produção. O estudo também validou um modelo capaz de estimar a produtividade das safras com base em dados históricos do clima.

Publicado em 2026 na revista científica Agronomy Journal, o trabalho analisou a relação entre as condições meteorológicas e a produtividade na região vulcânica de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, e em uma propriedade rural de Caconde, no interior paulista. Foram usados dados de produtividade de 2011 a 2024 e registros meteorológicos de 2009 a 2024, porque o desenvolvimento produtivo do cafeeiro se estende por dois anos agrícolas. A equipe avaliou três cultivares de arábica: Mundo Novo 376/4, Catuaí IAC 144 e Bourbon Vermelho.

Além do enchimento dos grãos, os pesquisadores identificaram uma tendência de aquecimento na floração ao longo da série histórica, o que aumenta a exposição dessa fase ao estresse. Na região estudada, a floração ocorre principalmente entre agosto e outubro. Segundo o pesquisador Marcus Vinicius Oliveira Noronha, da Esalq/USP, a combinação de temperaturas elevadas e restrição hídrica pode intensificar a perda de água pelas plantas. Quando o estresse ocorre na floração, há risco de perda de botões florais e de redução do potencial produtivo antes mesmo da formação dos frutos.

Apesar da atenção ao calor, o déficit hídrico foi o principal fator associado às perdas estimadas de produtividade, seguido pelos efeitos das geadas. As penalizações atribuídas diretamente ao estresse térmico tiveram menor peso nas simulações. A resposta também variou entre as cultivares: o Bourbon Vermelho mostrou boa resiliência no desenvolvimento vegetativo, mas maior suscetibilidade nas fases reprodutivas.

Na avaliação regional, especialmente em Poços de Caldas, o modelo agrometeorológico alcançou coeficiente de determinação (R²) de 0,93 e raiz do erro quadrático médio (RMSE) de 453 quilos por hectare. O primeiro indicador mostra a capacidade de explicar a variação dos dados avaliados, e o segundo, o tamanho dos erros das estimativas. O R² de 0,93 não significa que a ferramenta acerte 93% de qualquer previsão futura, mas indica potencial para estimativas regionais, sobretudo em áreas com características produtivas parecidas.

O estudo chega em um momento de recuperação da cafeicultura. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de 2026 está estimada em 67,6 milhões de sacas beneficiadas, alta de 19,6% sobre 2025. Mesmo assim, o setor segue exposto a estiagens, geadas e oscilações de temperatura capazes de comprometer a produtividade dos ciclos seguintes.

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